ENTREVISTA COM IDEIACÇÃO

Finalmente!!! Depois de anos de atraso estou postando esta entrevista que realizei faz um longo tempo com esta banda de Lisboa (que já encerrou suas atividades), houve tentativas de lançar esta entrevista em zines que nunca saíram da prancheta, tentativas de lançar as músicas que a banda enviou em algum projeto ou trabalhos em coletivo, perda de contato com os integrantes... enfim mil e uma desculpas à parte segue a entrevista dessa banda que tem muitas idéias interessantes a serem expressas:



01- Primeiramente gostaria que você apresentasse a sua banda aos leitores, citasse quais atividades a banda esta envolvida atualmente, tocam apenas na Ideiacção ou há outras bandas que vocês tocam ?

R: Os Ideiacção aparecerão nos finais de 1997, todos os integrantes estavam envolvidos no funcionamento da Casa Okupada da Praça de Espanha, e pela afinidade que tínhamos resolvemo-nos juntar para dar início a uma banda anarco-punk, nessa altura éramos Rafael (bateria e voz), Pedro (baixo e voz) e Filipe (guitarra), entretanto Filipe sai da banda e o Pedro passa para a guitarra, ficamos alguns meses com a formação reduzida a dois até que entra João, amigo de longa data para o baixo, sendo esta a formação que dura até hoje, embora com muitas interrupções por ausência no estrangeiro alternada de vários membros. Atualmente estamos envolvidos de diversas formas no movimento de ocupação que tem crescido ao longo destes anos, Rafael faz uma editora / distribuidora de música e livros, a Dead Dream Factory. E como indivíduos todos temos ligações com diversos coletivos / projetos de caráter libertário. O Rafael, além do Ideiacção, canta na Etacarinae (uma banda de crust obscuro na onda de His Hero Is Gone) que vai agora editar um split ep com uma banda holandesa chamada Office Killer, canta também em Squander, uma banda emo-crust, onde o João também toca baixo e toca bateria em Mahamudra uma banda de música cósmica / psicodélica de viagem.

02 – Quando estive em Lisboa, no concerto com Simbiose, vocês e Execradores, fiquei sabendo que era a primeira apresentação da Ideiacção, após esta, quantas mais houve e como tem sido os concertos da banda ? Fique livre para comentar sobre isto.

R: Depois do concerto com vocês demos apenas mais um com Sin Dios e Zootic, pois Pedro ausentou-se para a Holanda de onde só agora voltou, a partir de agora começaremos a dar concerto com mais regularidade, em relação aos nossos concertos e a todos os outros que assistimos aqui na okupa da Praça de Espanha, o número de pessoas a assistir é bastante bom, mas infelizmente não é correspondente ao número de indivíduos envolvidos em projetos interessantes, pensamos que por aqui como um pouco por toda parte a maioria das pessoas ligadas na cena punk/hc etc, esta mais interessada em preconceitos, clichês, visual e encaixar em algum tipo de sub cultura do que na profundidade e conteúdo de muitas bandeiras que levantam.

03 - Em Portugal são desenvolvidas atividades junto a straight edges, como são estas atividades ? Há quanto tempo existem ? Já que antes punx e straight edges estavam divididos.

R: Aqui em Portugal nunca houve uma grande divisão entre punx e straight edges, isto é devido ao fato de que quando do início dum movimento punk/hc mais politizado e consciente em Portugal no final dos anos 80, princípio dos 90, tanto SxE como punx sempre trabalharam juntos tanto em centros, coletivos, bandas e inúmeros outros projetos, apenas a meio dos anos 90 quando houve uma explosão por todo lado num sentido mais comercial da cena punk/hc e o número de pessoas aumentou consideravelmente, tanto com o envolvimento superficial e modista, é que se verificou algum afastamento, mas como qualquer moda isto rapidamente passou e as pessoas que se mexem para levar avante projetos interessantes continuam a se juntar independentemente do estilo musical preferido, o punk sempre foi mais do que música, não? É importante ultrapassarmos os preconceitos que definem o que é punk ou o que é SxE, etc... e não nos limitarmos ao que está estabelecido, é óbvio que ambos tem pontos negativos, como por exemplo a tendência dentro do punk a aceitar passivamente a destruição do indivíduo através do consumo de álcool e drogas, ou do SxE que por muitas vezes ignora o caráter político social do movimento HC, mas pensamos que o que é verdadeiramente importante é a nossa evolução como indivíduos conscientes e não a integração nalgum padrão.

04 – Fale sobre os squats portugueses, qual o perfil dos mesmos e quantos existem no momento ?

R: O movimento de okupação tem vindo a crescer e desde a okupação em Lisboa em 96 da casa da Praça de Espanha que dura até hoje funcionando como centro de atividades, há também desde 98 uma okupa na periferia de Lisboa, que é uma casa de habitação com algumas atividades, nomeadamente a sala onde ensaiamos, esporadicamente vão existindo algumas tentativas de okupação, mas infelizmente desocupadas pela polícia como foi mais recentemente a okupa de S. Mamede, okupa no centro de Lisboa já há 07 meses que após uma vitória resistindo ao despejo, acabou por cair com uma intervenção policial surpresa na manhã de 04 de outubro. Neste momento seguem a tentativa de okupação de três novas casas, esperamos que tudo ocorra pelo melhor.



05 – Quais bandas tem atuado em Portugal, quais vocês recomendam ?

R: Bem iremos falar um pouco das bandas que tem já alguns lançamentos e consistência, e que estão mais próximas de nós, claro que existem muitas mais, boas e novas bandas promissoras.
- Ideiacção (he!he!he!): anarco punk como uma mistura de Sin Dios com Quarentine, vários lançamentos para breve.
- Zootic: Emo-Punk HC na linha das bandas francesas como Anomie, tem uma excelente k7 - livreto e novos lançamentos para breve.
- Alien Squad: banda punk / rawk, acabaram de editar um cd 100% d.i.y. punk!!!
- Lov da Xit: poderoso e rápido HC / Punk, bem criativo, tem uma split k7 com Simbiose e novos lançamentos a caminho.
- Simbiose: a banda de crust brutal mais antiga de Portugal, excelente, tem uma demo, uma split demo com OBNI, um split EP / split k7 com Lov da Xit e brevemente um split ep com Croustibat.
- Croustibat: Emo-Power Violence do melhor! Tem uma demo lançada pela editora Dead Dream Factory e para breve um split com Simbiose.
- Sannyasin (ex- X-Acto): HC com muita força, melodia e emoção, com uma abordagem a diversos temos dum ponto de vista político espiritual, muito bom, tem uma excelente demo e para breve um cd na Dead Dream Factory.
- Renewal: brutal barulhento emo new school vegan SxE, tem duas demos, acabou de sair um excelente cd “Repetition Breeds Inertia”, e para breve um split cd / lp com Most Precious Blood (ex- Indecision) na Dead Dream Factory.
- Etakarinae: banda de crust obscuro na linha de His Hero Is Gone, membros de Renewal / Ideiacção, brevemente um split ep Office Killer (Holanda) na Dead Dream Factory.
- Time X: banda SxE old school político rapidíssimo e agressivo, tem duas demos e novos lançamentos para breve.
- New Winds: old school SxE, como uma mistura da melodia de Ignite com a política de Nations On Fire, tem um cd e mais recentemente um álbum em k7 + booklet pela Dead Dream Factory.
Se estiverem interessados em adquirir material destas bandas escrevam para o Rafael / Dead Dream Factory, contato no fim da entrevista.



06 – Foi distribuído mini fanzines no vosso 1º concerto e há lá um texto sobre os horrores do cárcere, vocês conhecem ou tem informações sobre as prisões do 3º mundo, em especial as do Brasil ? Vocês desenvolvem algum trabalho de apoio as vítimas do cárcere ?

R:Temos bastante informações sobre as prisões do 3º mundo, nomeadamente do Brasil, os media fazem questão de noticiar os crimes e atrocidades cometidos pelas forças da ordem e também as revoltas e motins dos presos, obviamente com a intenção de camuflar a verdadeira situação das prisões e dos países ditos desenvolvidos, temos consciência que a violência policial na América do Sul é muito grande, mas que a Europa também não é nenhum paraíso como nos querem fazer crer, por exemplo, Portugal é dos países com menor taxa de criminalidade da União Européia, mas tem das maiores populações prisionais, o número de indivíduos mortos nas prisões rende aos 1000 por ano, vítimas de espancamentos, torturas, doenças, falta de cuidados médicos e suicídio. O Pedro esteve até pouco implicado na Cruz Negra Anarquista, por agora tentamos falar do assunto nas nossas músicas e textos, não participando diretamente num coletivo. Conta da Cruz Negra Anarquista de Lisboa: Apartado 21290/1131 Lisboa Portugal.
e-mail: cna_lisboa@hotmail.com

07 – Falando sobre o Brasil, há pouco tempo atrás estava sendo comemorada a festa dos 500 anos da “descoberta” do Brasil, o que para muitos foi uma afronta aos direitos dos povos negros e indígenas. O que vocês podem dizer sobre isso, até que ponto esta “festa” foi noticiada na imprensa portuguesa ?

R: Esta farsa colonialista foi bastante noticiada por aqui, Portugal está empenhado no projeto da construção da nova Europa, a Europa do humanismo, da tolerância, da cooperação e da multi-cultura, por isso os 500 anos de colonização são algo a ocultar e a festa uma operação de limpeza do sangue derramado, atualmente o colonialismo e o capitalismo é mais rápido e voraz e os estados unem-se nestes projetos vergonhosos para alienar os explorados, integrá-los, fabricando o consenso para que não haja contestação, mas a realidade é bem oposta a esta paz e tolerância, este discurso peace & love dos capitalistas / políticos é construído com mão de ferro, reprimindo movimentos sociais e revolucionários, a propósito dessas festas de celebração multi-cultural basta vir a Lisboa e ver quem trabalha na construção civil e que vive nos guetos lisboetas.

08 – Creio que seja isso, deixo este espaço livre para eventuais considerações, colocações, expor algo que tenham interesse em divulgar, enfim o espaço é vosso...

R: Bem, há muitas questões por colocar que não haverá espaço numa entrevista para abordar, no entanto já que nos movemos no âmbito do punk hc cremos que é importante focar que já que temos uma banda proposta radical de mudança individual / social devíamos verdadeiramente transpor isto para as nossas vidas e condutas, pois infelizmente a tendência são as intrigas, os fanatismos que muitas vezes refletem a superficialidade dum movimento composto por indivíduos que vivem assente em preconceitos, isto de maneira alguma ajuda ao crescimento da transformação e da revolta, mas pelo contrário aumenta as distâncias e crescem os guetos que demonstram a falta de cooperação no mundo punk hc. Ok, é tudo, obrigado por tudo zorel.



Para contatar os Ideiacção:
e-mail: ideiac@hotmail.com Ou escreve para: a/c Rafael Brazuna: Apartado 2116 1103-001 Lisboa / Portugal

Confira os sons da Ideiacção:
http://www.4shared.com/audio/0uW6EHmq/01_Eles_Enganam-Te.html
http://www.4shared.com/audio/c_2kdJqP/02_Vampira_Patronal.htm
http://www.4shared.com/audio/FxdTagPy/03_A_Fria_da_Vida.html

Warcry "When comes the end?" Cd da Turnê Brasileira



A banda Warcry esteve no Brasil no começo do ano de 2010 e passou por várias cidades e estados como SP, RJ, ES, BA, SE e MG fazendo uma extensa turnê. O selo Cinque Records em parceria com outros 09 selos e distros brasileiras lançou um CD que contém 22 músicas da banda que basicamente compôs o repertório do seu ataque sonoro em terras tupiniquins, quem viu a banda ao vivo sabe do que estou falando! Por isso, não perca tempo e adquira o seu CD agora mesmo!

Todo Fim (do Mundo) pressupõe um recomeço!




"Será que vivemos nós os proletários, será que vivemos? Será que os fracos remédios que tomamos não seria a doença que nos corrói?" - Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo

“Convido a todos para uma aventura coletiva de diversão generalizada e de livre interdependente exuberância" - Bob Black

Blocos de guerreiros vestidos de negro enfrentando o aparato repressivo do estado, rizomas de rádios livres e comunitárias se contrapondo a mídia corporativa, levantes camponeses e povos indígenas se insurgindo contra multinacionais, redes de okupas questionando a especulação imobiliária. Ao contrário do que a mídia de massas deseja nos mostrar, o mundo está explodindo em mudanças rápidas e promissoras e cada um destes elementos é mais uma peça no mosaico deste tempo em movimento.

O futuro realmente não é mais como era antigamente, e esta frase nos lembra o quão negro o futuro nos pareceria se não fosse nossa própria capacidade de intervirmos ativamente no que está por vir. A Protopia é a nossa proposta de intervenção neste estado de coisas, num mundo que depende de nossas ações congregadas para que possa existir. O fim da História é um fato cotidiano, aconteceu e ainda acontece todas as vezes que ao invés de assumirmos um papel ativo em seu rumo, cruzamos os braços e deixamos a maré conservadorismo político institucional jogar tudo o que somos no abismo de uma passividade de eleitor-consumidor.

Protopia é a virada da maré, uma estratégia espacial que busca antes de tudo a tomada de um papel ativo na construção de nosso próprio mundo, ao mesmo tempo em que lançamos o barco daqueles que um dia se pensaram como senhores da história contra a solidez de nossa proposta. Transformação radical socio-espacial, é isso o que chamamos de Protopia, simples, e ao mesmo tempo subversivamente complexa:

1 - Desista de esperar pela revolução popular, pelo messianismo comunista e por todos os milagres que prometem as propostas reformistas dos sociais-democratas. (isso nunca vai dar certo e as experiências históricas mostram bem isso).

2 – Fuja de todas as formas de ação espetaculares, já que quando elas não são pró-sistemicas, provavelmente se constituem em alguma forma de escapismo. Abandone igualmente todas as ações que não levam a lugar algum como revolta gratuita e loucura isoladora, depressão e hipocôndria, saber-pelo-saber e arte-pela-arte, etc.

3 – Parta secretamente em busca do Y, da conjunção de vontades, iniciativas e projeções, busque o encontro oculto e se desloque para longe dos centros de poder. Busque outras pessoas de ímpeto livre, constitua formas de ação coletiva até o surgimento de uma comunidade intencional.

4 – Não pague mais impostos, busque investir seus recursos e seu tempo na busca coletiva por autonomia energética, habitacional e alimentícia. Estabeleça relações de troca de bens e serviços com grupos camponeses, ecovilas horizontais, organizações populares e aldeias indígenas.

5 – Dê preferência por tecnologias limpas e renováveis, técnicas em equilíbrio com o meio como a permacultura e o earthship. Quando se é vizinho da sociedade do desperdício, a macro-reciclagem pode ser algo muito interessante. (pneus não são só pneus, mas um monte de coisas em potencial.)

6 – Promova a comunicalidade ao isolamento, se desloque sazonalmente, se inicialmente não for possível viver fora da Máquina em tempo integral, divida seu tempo entre seu velho cotidiano e a criação dessa nova forma de sociabilidade.

7 – Aja pelo crescimento deste rizoma de zonas autônomas, estimule e auxilie outros grupos no surgimento de novas comunidades. Mutualidade, união e troca não têm preço em mundo onde o sistema vence pela hostilidade, pela competitividade e pela divisão, prepare-se para assistir ao surgimento dos enclaves libertários.

8 – Constitua um imaginário local compartilhado, pontos de encontro, grupos de estudos, espaços de vivência, e principalmente, circuitos de festas e dias de celebração. Cada pessoa livre do mundo-cão, e cada pedaço de solo libertado, são por si só motivos a se festejar.

9 – Prepare-se secretamente para a reação do estado e do capital. Assim que a tática for descoberta, pode ter certeza que manejarão seus aparatos de difamação e repressão contra você. Esteja sempre articulado com a rede. Não motive conflitos (antes do tempo), a cada operação de opressão bem sucedida quem marca ponto são eles e não você.

10 – Lance sorrateiramente através da Web propagandas de libertação e popularização do pensamento libertário; manuais de como abandonar o caos capitalista e construir (ou fazer parte de) comunidades autônomas fora do mapa na qual uma vida interdependente possa valer a pena.

Enquanto iniciativa o Protopia está em permanente reconstituição. É aberto a todos que queiram efetivamente participar, e todos que possam se identificar com a proposta e que queiram tomar parte nela são bem vindos. Estamos no início de tudo e qualquer um pode contribuir com as suas próprias idéias ou ações, ou como bem entender

Os Dramas da Liberdade



A teoria sartreana do ser-para-si conduz a uma teoria da liberdade. O ser-para-si define-se como ação e primeira condição da ação é liberdade. O que está na base da existência é a livre escolha que cada homem faz de si mesmo e de sua maneira de ser livre. O em-si, sendo simplesmente aquilo que é, não pode ser livre. A liberdade provém do nada que obriga que obriga o homem a fazer-se, em lugar de apenas ser. Desse princípio decorre a doutrina de Sartre, segundo a qual o homem é inteiramente responsável por aquilo que é; não tem sentido as pessoas quererem atribuir suas falhas a fatores externos, como a hereditariedade ou a ação do meio ambiente ou a influência de outras pessoas. Por outro lado, a autonomia da liberdade, enquanto determinação fundamental e radical do ser-para-si, vale dizer do homem, faz da doutrina existencialista uma filosofia que prescinde inteiramente da idéia de Deus. Sartre tira todas as conseqüências desse ateísmo, eliminando qualquer fundamento sobrenatural para os valores: é o homem que os cria. A vida não tem sentido algum antes e independentemente do fato de o homem viver; o valor da vida é o sentido que cada homem escolhe para si mesmo. Em síntese, o existencialismo sartreano é uma radical forma de humanismo, suprimindo a necessidade de Deus e colocando o próprio homem como criador de todos os valores.
Ao lado das análises volumosas e rigorosamente técnicas de O Ser e o Nada, nas quais se encontra exposta a filosofia existencialista, Sartre expressou seu pensamento através de várias obras literárias, que o colocam como um dos maiores escritores do século XX. Nelas encontram-se todos os temas fundamentais de sua concepção do homem, realizados nos planos concretos da personagem, suas ações e suas situações existenciais.
Antoine Roquentin, personagem principal de A Náusea (1938), vive sozinho, sem amigos, sem amante, nada lhe importando, nem sequer os outros homens, nem ele mesmo; o mundo para ele não tem nenhuma razão de ser e é absurdo porque composto de seres em-si: a cidade, o jardim, as árvores.
Pablo Ibietta, republicano espanhol, personagem central de O Muro, vive uma das “situações-limite” descritas por Sartre: momentos de intensificação de conflitos sociais e individuais, quando o homem é obrigado a fazer uma escolha e afirmar sua liberdade sua liberdade radical. Pablo Ibietta, preso e torturado pelos fascistas de Franco, vê postas à prova as virtudes da coragem, fidelidade e sangue-frio. O próprio Sartre viveu uma dessas “situações-limite”, quando preso num campo de concentração nazista, em 1940, do qual conseguiu fugir, fazendo sua escolha: participar da resistência ao invasor alemão.
O problema da ação e da liberdade constitui o tema da trilogia de romances Os Caminhos da Liberdade. No primeiro, A Idade da Razão (1945), as questões individuais predominam, a história e a política são panos de fundo. Mathieu Delorme, jovem professor de filosofia, procura a liberdade pura, sem compromisso de qualquer espécie; Brunet, ao contrário, personifica a renúncia da liberdade pessoal em favor do engajamento político; Daniel ilustra a tese gideana da liberdade como ato gratuito, sem qualquer motivo; Jacques abandona os sonhos juvenis de liberdade para casar-se, ter um trabalho, viver uma vida “regular”. No segundo volume da trilogia, Sursis (1945), os acontecimentos políticos revelam que os projetos de vida individuais são, na verdade, determinados pelo curso da história, tornando-se ilusória a busca da liberdade num plano puramente pessoal: a liberdade é sempre vivida “em situação” e realizada no engajamento de projetos voltados para interesses humanos comunitários. Apenas um compromisso com a história pode dar sentido à existência individual. Em Com a Morte na Alma (1949), último romance da trilogia, Mathieu ilustra a tese do engajamento gratuito; ele arrisca a própria vida apenas para retardar algumas horas a investida das tropas alemães.
Outras obras literárias de Sartre ilustram as teses existencialistas. Canoris, personagem da peça Mortos Sem Sepultura (1946), é um homem de ação, pronto para enfrentar a morte pela causa da liberdade. Hugo, nas Mãos Sujas (1948), é um intelectual da classe média, engajado no Partido Comunista, não por convicção, mas para satisfazer sua necessidade de ação. Na peça O Diabo e o Bom Deus (1951), Goetz é um nobre da Idade Média que abandona seus privilégios para fazer o bem aos camponeses. Inspirados nesse exemplo, os camponeses rebelam-se contra todos os senhores feudais e empregam a violência. Goetz acaba por concluir que, para transformar o mundo, a violência, as vezes, é necessária; é preciso “ter as mãos sujas”, para combater a opressão; o Bem abstrato e sobrenatural nada consegue realizar, só o próprio homem é criador de sua liberdade.

Sartre, Jean Paul. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. XI e XII.